Clubes querem criar Liga para gerir o Brasileirão. Agora vai?

Todos nós fomos surpreendidos na última terça-feira quando 19 das 20 equipes que atualmente jogam a elite do nosso futebol divulgaram comunicado decidindo criar uma liga para organizar o Brasileirão.

O documento, apresentado e assinado pelos clubes em reunião na CBF no Rio de Janeiro, sinaliza a criação de uma Liga independente para organizar o Campeonato Brasileiro.

A intenção do grupo é organizar a partir da edição do ano que vem.

Dos 20 clubes da nossa elite, o único a não assinar foi o Sport, por estar passando por problemas internos – no fim de semana, o presidente e o vice entregaram seus cargos.

No entanto, informou em nota que concorda com a criação da Liga e que “oficializará sua adesão o mais breve possível”.

A proposta da nova liga

Essa ideia já havia sido ventilada alguma vezes desde que a pandemia do COVID19 começou.

As articulações, no entanto, esquentaram nas últimas semanas após o afastamento do presidente da CBF Rogério Caboclo, por causa das denúncias de assédio dentro da entidade.

O grupo de dirigentes de clubes se reuniu antes de estarem na CBF para planejarem as ações.

Apesar de outros pontos terem sido apresentados – como uma maior participação dos clubes na CBF – a criação da Liga foi algo mais forte.

Integra do documento

“Por unanimidade dos presentes, 19 Clubes da Série A do Futebol Brasileiro – em razão de diversos acontecimentos que vêm se acumulando ao longo dos anos e que revelam um distanciamento total e absoluto entre os anseios dos clubes que dão suporte ao futebol profissional brasileiro e a forma como que é gerida a CBF – reunidos nesta data, decidiram adotar postulações e resoluções na forma abaixo elencada:

1. Requerer a imediata alteração estatutária que consagre uma maior participação dos Clubes nas decisões institucionais e na gestão da CBF, admitindo-se os clubes como filiados desta entidade;

2. Dentre os itens desta alteração estatutária, necessariamente deve ser incluída a votação igualitária nas eleições para escolha do Presidente e Vice-Presidentes da CBF, sendo certo que Federações e Clubes das Séries A e B terão seus votos contados de forma unitária e com o mesmo peso entre si;

3. Ainda no que se refere à alteração estatutária, inclui-se o fim dos requisitos mínimos para inscrição nas chapas concorrentes à eleição desta entidade, abolindo-se a necessidade de apoio de 8 (oito) federações e 5 (cinco) Clubes, permitindo-se o lançamento de chapas que tenham o apoio expresso de, ao menos, 13 eleitores independente de serem clubes ou federações;

4. Comunicar a decisão da criação imediata de uma Liga de futebol no Brasil, que será fundada com a maior brevidade possível e que passará a organizar e desenvolver economicamente o Campeonato Brasileiro de Futebol. Além dos Clubes signatários, os Clubes da Série B serão convidados a integrara a Liga.

Os clubes adotarão medidas efetivas para consumar a sua associação, para, de forma organizada, exercerem a administração do futebol brasileiro e do seu calendário.”

Caboclo se reuniu virtualmente com presidentes de clubes da Série A indicando que o futebol brasileiro não ia parar em 2021 por causa do COVID19.

E, aparentemente, não é apenas a Série A.

O presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, se manifestou sobre o documento – e mais participação dos clubes na CBF – e citou que a Série B havia sido convidada:

– “A união dos clubes de futebol é uma ingenuidade sua”. Não, não era. Hoje 19 clubes de Série A assinaram o compromisso de criação imediata da Liga de Futebol do Brasil. Série B já foi convidada. Pedimos tb equiparação nos votos na eleição da CBF e fim dos filtros de candidatura – disse o presidente do Bahia.

– Há muito o que fazer, e isso começa já. Por novo calendário, mais planejamento, investimentos e receitas. Por democracia, com equilíbrio, união e trabalho. Sem conflitos, sem ressentimentos. Nós, clubes de futebol, queremos chegar mais próximo do que cada brasileiro espera de nós.

Não houve definição sobre quem comanda esse movimento, mas já está sendo organizada uma comissão para definir os temas principais.

E a CBF?

A CBF publicou uma nota confirmando a reunião e o recebimento do documento dos 19 clubes:

– A CBF informa que nesta terça-feira, 15, o Presidente Antônio Carlos Nunes, Vice-Presidentes, Secretário Geral e Diretores da entidade estiveram reunidos com os representantes dos clubes disputantes da Série A do Campeonato Brasileiro. Na ocasião, os clubes apresentaram uma carta com solicitações coletivas, que serão objeto de análise interna por parte da CBF.

A grande questão sobre o documento é que o instrumento estatutário que poderia discutir e definir essa passagem de bastão, a Assembleia Geral Administrativa, não é composta pelos clubes. Somente pela CBF e as 27 federações estaduais.

Ou seja: para “reduzir” os poderes das federações, as federações precisariam votar.

O que o Estatuto da CBF diz sobre Ligas:

“Art. 24 – É facultado à CBF, a seu exclusivo critério e nos termos do presente Estatuto, mediante decisão de sua Assembleia Geral Administrativa, admitir a vinculação de Ligas constituídas ou organizadas por entidades de prática desportiva, para fins de integração de suas competições ao calendário anual de eventos oficiais do futebol brasileiro e para seu reconhecimento ou credenciamento na estrutura ou organização desportiva de futebol, no âmbito regional, nacional ou internacional.

§ 1º – Para vinculação à CBF e para a integração de suas competições ao calendário anual oficial do futebol brasileiro, as Ligas deverão cumprir os requisitos exigidos pela CBF.

§ 2º – As Ligas, para terem sua vinculação admitida, devem submeter seus Estatutos à prévia aprovação da CBF a quem incumbe definir a competência, direitos e deveres das Ligas, em obediência ao disposto no Estatuto da FIFA.

§ 3º – As Ligas admitidas estarão obrigadas a respeitar o calendário anual do futebol brasileiro, além de subordinarem-se aos Estatutos, normas, regulamentos e decisões da FIFA, da CONMEBOL e da CBF.

§ 4º – As Ligas eventualmente criadas sem observância deste artigo não serão reconhecidas para todos e quaisquer efeitos jurídicos e desportivos como integrantes do sistema da FIFA, da CONMEBOL, da CBF e das Federações filiadas.”

Já vimos esse filme antes. Em 1987 foi criado o Clube dos 13 após a CBF “abandonar” a realização do Brasileirão daquele ano.
No fim, virou uma briga de CBF e C13, e o movimento virou apenas um organizador de contratos de transmissão.

Depois, alguns clubes se juntaram na Primeira Liga do Brasil mas, tirando duas edições de um torneio entre os “coligados”, foi um sonoro fracasso – indicando o começo da derrocada do Cruzeiro, cujo presidente foi o principal dirigente da Primeira Liga.

Será que vai dessa vez? Vamos ficar atentos as próximas novidades.

E você? Será que vamos conseguir nos igualar a Inglaterra, Alemanha, França, Espanha, como uma liga que organiza o campeonato nacional no lugar da federação? Comenta aí!

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